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sexta-feira, 17 de setembro de 2010

Quando dizer "não" é necessário



Não. Quanto significado cabe em uma só palavra. Apesar de carregar uma carga negativa (no sentido literal), dizer "não" também tem seu lado bom.

Podemos dizer "não" para os abusos, para a corrupção, para as injustiças. Agora, quando o assunto é negar um pedido a alguém, especialmente a uma pessoa próxima e que aparentemente precisa mesmo da nossa ajuda, tudo fica mais difícil. Como falar que não pode terminar um projeto urgente no trabalho porque combinou alguma coisa com seus filhos, por exemplo?


Parece brincadeira, mas muita gente ainda não sabe dizer "não" quando necessário. A psicóloga Patrícia Gebrim, que acaba de lançar o livro "Enquanto Escorre o Tempo" (Pensamento, 2010) explica que a razão para isso pode estar na criação de cada indivíduo. Quem recebeu, desde cedo, a mensagem de que deve agradar e se submeter às vontades dos outros para ser aceito, tende a aplicar isso em todos os relacionamentos que estabelece.

Exemplificando, essas pessoas podem ter recebido uma educação muito rígida dos pais e, por isso, ter acreditado que seriam abandonadas caso os contrariassem. Então, depois de adultas, continuam com essa ideia em seu íntimo. Assim, "acabam reagindo a parceiros afetivos e chefes como reagiam aos pais, tendo tendência a se submeter, a não contrariar, a agradar. Talvez isso tudo se passe de maneira inconsciente, o que torna mais difícil a mudança de atitude", diz Patrícia.

Porém, é bom lembrar que não dizer "não" significa um "sim" com consequências ruins, tanto para quem aceitou o pedido quanto para quem o fez. Na vida profissional, "um trabalho aceito em condições que não poderá ser concluído é prejudicial tanto para a carreira quanto para o chefe e a empresa", afirma a psicóloga e psicanalista Claudia Finamore.

O mesmo vale para a vida familiar: "Aceitar todos os pedidos do marido, além de frustrar a mulher em muitas situações e o casamento tornar-se uma fonte de tristezas e angústias, poderá prejudicar a relação do casal. E, não dizer "não" para os filhos é prejudicial na educação, pois não coloca limites, possibilitando relacionamentos do tipo vale-tudo", fala a especialista.

Além de fazer mal aos relacionamentos, a incapacidade de dizer "não" pode se manifestar no físico, através de doenças como gastrites, resfriados recorrentes, estresse, etc. Isso porque, quando dizemos um "sim" contra nossa vontade e para não frustrar o outro, acabamos frustrando a nós mesmos e acumulando sentimentos como raiva em nosso íntimo.


Por mais que desejemos esconder essas emoções, uma hora elas vêm à tona, de uma forma ou de outra, explica Patrícia. "Muitas vezes a doença acaba sendo a saída, um substituto para o NÃO não dito. Um exemplo seria uma pessoa que é convidada para dar uma palestra, acaba aceitando sem ter o real desejo de fazê-lo, e no dia é acometida por uma forte laringite que a impede de falar".

Para fugir dessa auto-armadilha e aprender a dizer "não", é necessário conhecer os próprios limites e saber o quanto pode negociar e ceder. "Saber o que significa dizer e ouvir não e como se sente em relação a essas situações é o primeiro passo para possibilitar alguma mudança", acredita Claudia.

Conhecer o que está na base dessa dificuldade em se posicionar também pode reverter o quadro, de acordo com Patrícia. "Com certeza a dificuldade de dizer ‘não’ está embasada por crenças distorcidas que a pessoa estruturou em seu passado. Ao trazer essas crenças para a consciência, é possível reformulá-las de maneira a respeitar mais a individualidade da pessoa".

Embora para a maioria das pessoas seja simples negar algo que não conseguirão realizar de uma maneira satisfatória, isso pode ser um desafio para outras. Portanto, há casos em que é melhor procurar a orientação de um psicólogo, para que, aos poucos, o paciente consiga se soltar e aprender a respeitar a si e seu espaço pessoal. Muitas vezes, dizer "não" aos outros é dizer "sim" a você mesmo.




Fonte: Vila Equilibrio